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Apps Direito Penal – Ney Moura Teles

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Nazistas em Formosa: realidade ou fantasia?

     O grande Euler de França Belém, na sua coluna (Imprensa) no Jornal Opção de 21.11.2010, dá notícia de que, no livro “Uma das Coisas Esquecidas – Getúlio Vargas e Controle Social no Brasil/1930-1954″ (Companhia das Letras, 341 páginas, tradução de Anna Olga de Barros Barreto), de R. S. Rose, está dito que em Formosa, minha cidade natal, fora descoberto um campo de aviação, alemão e secreto, e proibida a divulgação da descoberta em 1942. Também que alemães foram apanhados ali e nunca mais se soube deles. Não li o livro. Valho-me aqui do que Euler de França Belém, em quem confio, publicou.

   Infelizmente, nem tudo que aconteceu está contado nos livros, muita coisa está mal contada e até o que não aconteceu, volta e meia, é publicado. Por isso, aprendi a não acreditar em tudo que leio.

   Ainda adolescente, muito conversei com Sinval Gonçalves de Oliveira, falecido em 1991, historiador formosense graduado em Direito no Largo de São Francisco, onde foi colega de turma de Miguel Reale e do ex-Ministro Gama e Silva. Também convivi com o saudoso Sebastião Vianna Lobo, autodidata, pai do ex-Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Lélio Vianna Lobo, e que, bem antes de 1930 fora Vereador em Formosa. Muito perguntei a José das Moças Júnior, ainda vivo, com mais de 90 anos, sobre as coisas do passado de Formosa. Com meu falecido pai, Felix de Moura, nascido em 1915, em Formosa, advogado também do Largo de São Francisco, ex-deputado estadual, relator da Constituinte goiana de 1946, ex-secretário de Pedro Ludovico Teixeira e de Jonas Duarte, sempre falei sobre fatos da história de Formosa.

   De nenhum deles jamais ouvi qualquer notícia da existência de campo de aviação, secreto ou conhecido, nem de alemães, nazistas ou não, presos em Formosa, como dá notícia o livro do americano. Nada, nem lenda ou fantasia.

Seria possível que tais fatos tivessem sido ocultados de toda uma cidade ou ignorados por formosenses atentos ao que se passava à sua volta?

   Apesar de, na década de 40, ser uma pequena e escondida cidade do interior goiano, é inacreditável que fatos dessa grandeza – construção de aeroporto, presença de alemães, nazistas, prisões etc. – acontecessem sem que nem um fiapo da notícia chegasse ao conhecimento dos cidadãos mais esclarecidos do lugar.

   O “brasilianista”, que afirma ter ido a Formosa em 1994 e conversado com Juca das Moças, Severino Penachio e Clovis Muniz, talvez não tenha feito as perguntas adequadas ou não tenha entendido, com clareza, as respostas recebidas. Nenhum deles deu notícia da fantasiosa história, mas ele insistiu em contá-la.

   Juca das Moças, ainda vivo, sabe tudo sobre Formosa. Clovis Muniz Reis, já falecido, professor, gaúcho, casado com minha melhor professora de Português, uma das melhores do Brasil, Jacira Rocha Reis, irmã do ex-deputado Anísio Rocha, só chegou em Formosa quase no final da década de 60, se não me engano. Severino Penachio, italiano, engenheiro e agrimensor, foi para Formosa no final da década de 40 ou início da década de 50, para trabalhar na Agro Colonizadora Industrial S.A., empresa fundada por Hugo Borghi, getulista, ex-deputado federal, que teria cunhado a história do voto dos “marmiteiros” que o Brigadeiro Eduardo Gomes teria recusado.

   Eis aí, a meu ver, a chave para entender a confusão sobre o campo de aviação.

   Hugo Borghi combateu, como aviador, na revolução de 1932. Era genro de Rui Vaccani, um pioneiro na aviação brasileira, e que fundara, em 1928, a ETA – Empresa de Transportes Aéreos, destinada ao transporte de mala postal entre o Rio, São Paulo e Campos.

   Hugo Borghi Filho conta, em seus Diários, que seu avô importara três aviões alemães da marca Klemm, monoplanos abertos de dois lugares. Seu motorista particular, um alemão chamado Hans Gusy, fora enviado à Alemanha para acompanhar a execução da encomenda pela fábrica, e fazer um curso de pilotagem, retornando então, como um dos pilotos da companhia. Diz também que em 1947, com o final da segunda guerra, seu pai adquiriu nos EUA, três Douglas C-47 novos, versão militar dos DC-3. Fundou, em dezembro de 1947, a empresa Transporte de Carga Aérea, em Anápolis, GO, e o seu sogro Ruy Vaccani foi indicado presidente.

   Pois bem, Hugo Borghi também adquiriu, legal e oficialmente, já na década de 40, diversos imóveis rurais no município de Formosa, no vale do Paraná, entre os rios Paraim e Canabrava, onde iniciou um grande e ousado projeto de colonização. Obteve financiamentos astronômicos no Banco do Brasil e implantou um projeto gigantesco. Formosa passou a viver em função da chamada “Fazenda Boa Esperança” e do que ali se produzia. Construiu um aeroporto, para escoar a produção pela via aérea, porque não havia estradas. Com aquelas aeronaves adquiridas nos EUA fez transportar, por muito tempo, a produção de grãos e carnes, da Fazenda Boa Esperança, em Formosa, para São Paulo e Rio de Janeiro. Lá, todavia, jamais houve trabalho escravo, como afirma o livro do americano. Os empregados eram remunerados através de um vale, apelidado de “boró”, que era trocado em Formosa com os comerciantes, dentre eles Rachid Saad, pai do ex-senador José Saad. O “boró” tornou-se, na prática, uma verdadeira moeda, que circulava até mais que a moeda legal na época. A economia de Formosa viveu, por mais de dez anos, sob o influxo das atividades agrícolas e pecuárias da Fazenda Boa Esperança. Na área do projeto havia igreja, escolas e assistência médica para os mais de mil empregados. Eu mesmo conheci, já na década de 80, ainda preservados, os edifícios da igreja e das casas que serviram aos empregados. Nos finais de semana, muitos trabalhadores iam para Formosa, para fazer compras, para os bailes, namorar, e para o cabaré, gastando seus “borós”. Muitos que vieram de outros estados casaram-se em Formosa, e ainda moram na cidade, como Severino Penachio e Elias França.

   O projeto de Hugo Borghi não perdurou por muito tempo. Não sei as causas do fracasso, mas desconfio que, com a morte de Getúlio Vargas, em 1954, minguaram os financiamentos do Banco do Brasil.

   A Boa Esperança foi abandonada e, mais tarde, vendida a Euclides Wicar de Castro, cearense, ex-deputado federal, assassinado por Gladstone Lima Almendra em 19 de fevereiro de 1977 na BR-020, próximo da Lagoa Feia, em Formosa. Almendra também saiu ferido no embate, vindo a morrer, após vinte dias de internação, em Brasília. Alguns anos depois, defendi, no Tribunal do Júri, o motorista de Euclides Wicar, o único sobrevivente do tiroteio.

   O livro erra também quando afirma que Formosa, na época, era cercada por centenas de quilômetros de florestas, que impediriam a descoberta do campo de aviação. Não é verdade. O território do município, na época englobando os atuais municípios de Cabeceiras, São João d’Aliança e Vila Boa, compreendia terras no vale do Paranã e terras nas chapadas, que cercam o vão, dos dois lados. Em ambas a vegetação é o cerrado e a mata de médio porte. Impossível ter existido um campo de aviação escondido e por tanto tempo jamais avistado por quem quer que seja.

   Então, a meu ver, o aeroporto que o americano imagina ter servido a projetos nazistas é o campo de aviação da Fazenda Boa Esperança, há aproximadamente 60 km de Formosa, de grande movimento no final da década de 40 e na década de 50, e que serviu a muitos, menos a qualquer projeto de inspiração nazista. Um alemão que pode ter aparecido por lá foi o piloto de Rui Vaccani, sogro de Hugo Borghi, mas não consta que tenha sido preso, nem que fosse nazista.

Ney Moura Teles é advogado, formado, em 1984, pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP. É professor licenciado de Direito Penal do UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). Ministrou as disciplinas de Direito Penal I e Direito Penal III. É autor de “Direito Penal”, publicado originalmente pela LED – Editora de Direito, e depois pela Editora Atlas, e adotado em inúmeras faculdades de Direito do país. Foi professor na Escola Superior da Magistratura do Estado de Goiás, na Escola Superior de Magistratura do Distrito Federal e no Instituto Processus, em Brasília.

Comentarios 7

  1. Lucia disse:

    E S P E T A C U L A R !!! Um primor de relato histórico. Fora o brilhantismo com que você dá o encadeamento dos fatos, adorei seu registro sobre não se poder acreditar em tudo que escrevem por aí…Com o advento da internet essas lorotas pioraram muitooO. Parabéns!

  2. Patrícia disse:

    Parabéns pelo texto,de claro entendimento.Amo pesquisar fatos históricos.
    Patrícia

  3. Patrícia disse:

    Parabéns pelo brilhante texto.Amo história.

  4. Zoca disse:

    Parabéns Dr. Ney adorei a narrativa dos fatos e melhor ainda foi acrescentar mais conhecimento da história dessas terras da qual conheço bem porque meu pai administrou por muito tempo e onde passei parte da minha infância e adolecência.
    Rosângela Pinheiro Bastos

  5. Adorei o texto, não conheço Formosa, mas adoro histórias. Seu texto é claro e coerente. Obrigada por compartilhar!

  6. Ricardo Meira disse:

    Obrigado pela generosa menção à minha avó, Jacira. Realmente, a melhor professora de português que já vi, e responsável por algumas gerações de formosenses falarem e escreverem com mais apreço à nossa língua.

  7. Anonymous disse:

    Olá Ney,
    Meus sinceros parabéns pela fiel reconstrução dos fatos ocorridos em “Boa Esperança”, sonho de um patriota e idealista que, infelizmente, estava muitos anos antes do seu tempo…
    Grande abraço,
    Hugo Borghi Filho

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